11.10.05

3. A cidade medieval: cultura e religiosidade


__ Uma lição de Geometria, numa iluminura de Gossouin de Metz, Image du monde, século XIV, Paris, BN.

__ Franciscano em pregação, iluminura do livro Heures à l' usage de Therouanne, 1280-1290, Marselha, BM.
Na época medieval a produção cultural está intimamente relacionada com a religião; o latim, a língua da sabedoria e das cerimónias religiosas, é dominada apenas pela elite dos clérigos; o próprio ensino, ministrado nas escolas monacais, episcopais e paroquiais, visava sobretudo a formação dos eclesiásticos. O acesso ao conhecimento restringia-se, assim, aos membros da Igreja. Contudo, a partir dos meados do século XII, em cidades como Bolonha, Paris ou Oxford, surgem associações de estudantes e professores que pretendem promover um ensino diferente, dando origem às primeiras Universidades (ou Estudos Gerais), assim designadas porque recebiam estudantes de qulaquer grupo social e de todas as nações. Especializadas em áreas específicas, como a Medicina, Direito ou Teologia, procuravam responder também às necessidades de formação de nobres e burgueses, dado haver a consciência de que o ensino até então ministrado era insuficiente para responder aos problemas que os rodeavam. Precisamente para fazer face a alguns desses problemas urbanos, nomeadamente a pobreza, a mendicidade e a exclusão social, são fundadas no começo do século XIII as ordens religiosas mendicantes, Franciscanos e Dominicanos; reagindo ao luxo em que vivia a Igreja, seguem a regra da pobreza absoluta e da ajuda aos pobres, razão pela qual os seus conventos se situavam em meio urbano, geralmente fora das muralhas, junto aos arrabaldes, onde se dedicavam à pregação e à assistência. Estas novas ordens religiosas nascem, portanto, dos grandes contrastes sociais resultantes do crescimento económico e urbano da Europa ocidental.
Nesta carta de Frederico II, imperador entre 1220 e 1250, é bem visível o maior interesse dos leigos pelo conhecimento, que deixa de estar restrito apenas aos membros da Igreja:
"Meu Mestre bem amado, nós temos frequentemente e de muitas maneiras ouvido falar de questões e de soluções encontradas por um ou vários sábios, acerca dos corpos do alto, tal como o sol, a lua e as estrelas fixas do céu, bem como dos elementos, a alma do mundo, os povos pagãos e cristãos e todo o resto das criaturas que se encontram comumente espalhadas em cima ou debaixo da terra, como as plantas e os metais. Mas nada nos foi ainda explicado acerca dos segredos que trazem o prazer do espírito ao mesmo tempo que concedem a sabedoria: por exemplo, o que se refere ao paraíso, ao purgatório ou ao inferno, ou até mesmo os fundamentos da terra e sobre as maravilhas que ela encerra. É por estas razões que hoje vimos suplicar-te, por amor da ciência e pela veneração que deves à nossa coroa, que nos expliques qual é o fundamento da terra ou como ela está constituída (...)."
Armando Alberto Martins, História da cultura medieval. Textos e documentos, Lisboa, Faculdade de Letras, 2001/2002, p. 48.